Curitiba, 24 de setembro de 2025.
(Escrito em 27 de junho de 2025).

Estou tentando uma coisa aqui. Daquelas que vivo dizendo que não sou capaz.
Enquanto, tensa, aguardo pela saída do Lu de um exame que, para dizer o mínimo, pode mudar toda a nossa vida, reajo à ansiedade e me encaminho para um café próximo — totalmente guiada pela minha intuição, havendo tantos interessantes nos arredores. Ele é apenas uma portinha, com um toldo verde e grades nas janelas — quase não se destaca na movimentada Av. Manoel Ribas. Mas, ao avistá-lo, supersticiosa que sou, sorrio: ele se avizinha à pizzaria de minha infância (embora a franquia da qual, raras vezes, pedíamos — eram tempos de pouco delivery e muita massa de supermercado, coberta com requeijão, mussarela fatiada e ingrediente ou outro a mais que agradasse os paladares infantis; milho. Provavelmente milho — devia ser outra, dada a distância que estou de minha casa). Entro e, entre duas poltronas, sou surpreendida pelo meu livro de poesia favorito — capa acinzentada, foto do velho tísico, também dele os poemas preferidos. No salão, um aparente viajante (de mala e mochila a tira-colo) ocupa uma das mesas. Espio o terraço, onde um casal está com uma filhinha pequena. Hesito por uma mesa de frente para a janela, na qual chego a me sentar; não resisto ao velho cantinho, com sofá e parede.
Peço um filtrado especial, de 300 ml. Um croissant com manteiga. Enquanto aguardo, ligo o meu notebook. Adianto uma apresentação do trabalho, respondo mensagem ou outra no Teams. Reviso as pendências em minha agenda. Olho as horas e me dou conta de que tenho tempo. Quase cedo ao velho caderno, à caneta preta de ponta fina. Mas, eu estou tentando uma coisa aqui. Daquelas que vivo dizendo que não sou capaz.
Abro um documento em branco. O som ambiente é um disco antigo do Charlie Brown Jr., que embora não inspire, também não incomoda (a menos quando me obriga a cantar, pézinhos batendo suavemente no chão, olhos fechados como se eu gritasse — ainda que a voz não saia:
“então já eraaaa.
Eu vou fazer de um jeito que ela não vai esquecer!”.
Como resistir?).
Os outros comensais deixam o café e estou sozinha com as duas atendentes, que conversam, de forma espaçada, em tom médio; que me permite entender o que dizem tão somente se paro e presto atenção na conversa, o que não me dou ao trabalho. Outra vez, o som não me atrapalha.
As palavras começam a preencher a página em branco e quase me surpreendo.
“às vezes faço o que quero.
Às vezes faço o que tenho que fazer.”
(outra pausa necessária obrigatória!)
Minha escrita vem de um lugar analógico. Quase ritualístico. Uso cadernos tradicionalmente sem pauta, páginas amareladas, com encadernação tradicional. Quase sempre de um mesmo tamanho (A5), de uma mesma cor de capa (vermelha). Sou incapaz de usar canetas que não sejam esferográficas pretas, ainda que tenha passado por uma fase tinteira-gel curta. Sofro absurdamente se a ponta não é fina, se o corpo não tem a espessura certa e aquela borrachinha para acomodar os dedos, já tão calejados. Prefiro o silêncio à música, ainda que instrumental — mas, em alguns dias, simplesmente preciso de determinada playlist; que surge, tal qual a criação (por vezes, é ela que inspira). Gosto de estar sozinha. A iluminação deve ser suficiente e tão somente isso — na vida (como diria Eliana Rigol, luz branca foi feita para o hospital). Mas, ainda que sob o sol, se disponível, acendo uma vela. E, impreterivelmente, estou sempre acompanhada de uma bebida quente — normalmente café; por vezes, chá de ervas ou Earl Grey.
A descrição é fantástica. Quase poética. No entanto, cada vez mais distante de minha realidade — e de tantas outras: levantar às 05h-05h30 para fazer exercício; um banho rápido; preparar e tomar café; acordar o filhote; vesti-lo e levá-lo para a escola; trabalho; intervalo do almoço com afazeres domésticos; mais trabalho; preparar o jantar; receber o pequeno; dar jantar; brincar; banho, pijama e leitura; fazer dormir; e, ufa, chá e cama — nos dias bons. Às vezes (quase sempre, verdade seja dita), etapa ou outra se sobrepõem, na falta de tempo ou acaso da vida. Tomo café com a cria no colo, fazendo uma última soneca; almoço preparando uma apresentação; enfio a louça na máquina (abençoada!) ouvindo um treinamento; brinco no banho, entre ensaboadas e escovadas de dente. Ou, pior, falho. Acordo atrasada e só consigo treino curto ou nenhum; esqueço os remédios da manhã; chego atrasada no laboratório; almoço alguma besteira no caminho entre compromisso e outro; faço ovos mexidos, dias seguidos, para o jantar (com arroz e feijão, que escolada que estou, já congelo em quantidade); coloco na cama tão tarde e bêbado de sono, que quase cogito experimentar minha melatonina no pequeno (quase. Fiquem calmos); deito ainda mais tarde e perco o sono, para a velha conhecida insônia.
A escrita. Bem. A escrita, linda, ritualística, solitária, silenciosa, luz de velas, poética. Bem. Ela fica. Nos desejos. No anseio por dias mais calmos. Na projeção de que “um dia”. No ideal diário de encontrar um bloco de tempo para encaixá-la, ao meu modo. Nos pequenos fragmentos que construo em minha mente, que desencadeariam um texto de mais fôlego — e que se perdem, na fraca memória, no daimon1 que veio e me escapou — incapaz que fui de segurá-lo. Sem perceber (afinal, também não dá tempo), a encaixoto. Nos padrões que criei, que chamei de meus — e que, embora doces, tem deixado um retrogosto esquisito.
(meu deus, agora toca Skank. Eu sou só uma millennial brasileira, criada com Nescau e Malhação. Como resistir?)
“e eu ainda gosto dela.
mas ela já não gosta tanto assim.
a porta ainda está aberta.
mas da janela já não entra luz…”
O celular chama, com uma mensagem do Lu. Acabou o exame e também esses minutos de experimentação. Fecho o notebook. Abro, novamente, para um registro fotográfico. Pago a minha conta. E, ainda que ansiosa pelo resultado (dele), volto em uma caminhada saltitante para a clínica, ao constatar a pequena vitória dessa experimentação (ainda que escrever em um café charmoso, no horário do almoço de uma terça ensolarada, mesmo que direto do notebook, tenha sim a sua poesia).
É 24 de setembro quando retorno a este rascunho, com a intenção de revê-lo e, quem sabe, enviá-lo. Tanto me separa daquele 27 de junho, que faz três meses parecer três anos; ao mesmo tempo que não mais que três horas. Sorrio sozinha ao imaginar aquela Mariana, que voltou saltitante do café, após conseguir seu pequeno-grande feito de desencaixotar o processo de escrita. E a ela, voltaria com carinho, para abraçá-la, tendo sido esse movimento libertador para o que a aguardaria nas semanas seguintes, quando não mais que um bloco de notas do celular, de pé, na aula de natação do pequeno; nas pausas do trânsito caótico de um começar/terminar de dia; no escuro da cama, após ninar o filho, a permitisse o desabafo.
Os exames do Lu saíram bem e nos fizeram celebrar com um Brunello de Montalcino de 2012, trazido na mala da viagem para a Itália, há alguns (bons!) anos. Mas, o desencadear dos tratamentos nos custou um bocado, o que pagamos, os dois (três!) com tempo; vivido e, especialmente, não vivido.
A vida vai entrando nos eixos, ainda que uma parte de mim tenha entendido que talvez o caos seja um movimento permanente, que nos espreita da esquina, pronto para nos surpreender de novo e de novo — o que nem sempre é, exatamente, ruim. E nessa dança sem compasso, tento inventar um ritmo próprio, que me faça sentir — quem sabe, seja esse.
com carinho
(e gratidão àquela Mariana, que fez a Mariana de hoje estar aqui — e de pé!; no desejo profundo que ela também te inspire),
Mari P. Bragança.
Obs.: Preciso dizer que a intenção é voltar com mais frequência? Então não direi.
Referência à Grande Magia, de Elizabeth Gilbert.
Ainda sobre…
Chegou na Tasca agora? Senta, pega um café e deixa eu te contar outras histórias…









Fiz um café para sentar contigo. Às vezes tenho dificuldade de explicar o quanto gosto de ficar sozinha. E está lá, na sua jornada escrita. Obrigada querida❣️
Mari, estive com você nesse café <3 que escrita boa e fluida:) bom te ter de volta.
Aliás, tambem sou uma Millenial brasileira regada à Nescau e Malhação, hahaha 😅 amei essa descrição!