São Paulo (mais especificamente, Guarulhos), 25 de julho de 2026.
(Escrito em Vitória, em 08 de julho de 2026.)
Estou em Vitória. Chego no dia anterior, depois de uma saga. O voo, comprado para as 11h, havia sido alterado para as 17h30 e, já no aeroporto, atrasado para as 19h10; depois para as 20h. Lotada de trabalho, uso cada segundo para entregar as minhas demandas muitas e acabo tendo tempo tão somente para pegar um sanduíche e comer no avião, rumo a Campinas (um Subway, frango defumado com cream cheese, só para empestear o ambiente todo com o aroma característico).
Chego em Viracopos em cima do próximo embarque. Atravesso o aeroporto em passos largos, para não perder a conexão. Quando o avião decola, estou exausta e só me mantenho acordada até terminar o romance água com açúcar que tenho usado de subterfúgio nos dias difíceis (da vez: Depois daquele Verão, da Carley Fortune - apaixonada!). Ainda com o Kindle na mão, aberto no prefácio de Antes e Depois da Alba de Céspedes (que seria a leitura do mês no Chicas), caio em um sono profundo até quase chegar no destino. Acordo nem cinco minutos antes de pousar, só para ver, pela primeira vez que me dou conta, o avião arremeter e precisar dar uma volta e tentar outra aproximação, por conta dos fortes ventos na cidade.
Vou para o hotel e eles não tem a minha reserva. O que tem é um recepcionista bastante grosseiro e mau humorado, que diz também não haver quartos disponíveis. Tento achar o voucher no celular. Abro o computador e busco pelo aplicativo de viagens da empresa. Os números não o satisfazem. Ligo então para a agência que, com a benção divina, faz brotar uma simpatia e uma acomodação. São 00h15. Não sobra forças nem para chorar. No dia seguinte, a este mesmo horário, com sorte, estarei chegando em casa.
Dormida, o que permanece, porém, é aquele arremeter. Volto instantaneamente no tempo e encontro a Mariana, conjuntinho colorido, maquaquinho e cata-ovo da Giovanna Baby, e seu medo de avião. Ancorada (ou avoada) pelo meu receio de ir (que estava; e sobre o qual partilho com o marido, de pé na cozinha, pouco antes de sair da Tasca), penso nas maiores besteiras. E, de repente, é o meu epitáfio que me ocorre:
“Mariana era pesquisadora e atuava em auditoria socioeconômica. Estava indo para Vitória, para participar da agenda mensal de um projeto. Deixa marido e filho”.
Para além da falta de ar profunda e intensa que sinto; e ressinto agora, ao escrever (e, de novo, ao editar) a última parte (‘como eles ficariam?’, me ocorre; tão absurdamente quanto o desejo de ficar e viver mais, muito mais, com eles!), um vazio enorme assola o meu peito, pelo que quis e não fiz. Pelo que desejei e não vivi.
“Devia ter amado mais. Ter sonhado mais. Ter visto o sol nascer…”1
Em cerca de um mês, faço 40 anos. Pode-se dizer que, se não cheguei ainda, com sorte e muito cuidado, estou bem próxima da metade de minha vida, do topo da montanha. E será que estou, realmente, aproveitando o caminho?
Surpreendentemente, enquanto pensava nisso tudo (ou rezava para pousar em segurança, verdade seja dita), das coisas que mais doeu não ser conhecida por, sem dúvida, foi a escrita.
“Era escritora. Compartilhava os seus textos em uma publicação na internet e estava terminando o seu primeiro romance”.
Sim. Mais do que viajar. Mais do que viver no mato. Mais do que morar em Paris, viver de renda, morrer velhinha e lúcida. Doeu morrer sem ter realizado fazer o que eu posso (posso?) fazer já — e amo: escrever.
São quase 07h30 e queria sair para correr há quase meia hora. Não deu. E talvez essa seja a primeira chacoalhada.
“Devia ter arriscado mais. E até errado mais. Ter feito o que queria fazer”.
Estou em Guarulhos, enfim de férias. Esse texto me visita quase que todos os dias, desde que saiu da mente bagunçada, para o caderno, naquela manhã, ainda em Vitória. Mas, é quando me vejo ali, no céu, com os meus, que o desejo grita.
Escrever. Partilhar os meus sentires. Dos porquês que não entendo; tampouco questiono. Que me acompanham, desde diário da TV Colosso. Desde as cartas trocadas com os primos de além-mar, que há cinco anos me fizeram correr pra cá, deram premissa à Tasqueando.
“Devia ter complicado menos. Trabalhado menos. Ter visto o sol se pôr.”
Tomo duas taças de vinho tinto, enquanto vejo o Pedro jogar videogame na sala da Gol. Vou para um canto carregar o telefone e abro o bloco de notas. O rascunho do que já foi só diário passeia diante de meus olhos cansados. Abro o computador e risco alguns “devia” da lista, ainda antes dos 40.
(E torço, daqui, para que te instigue a fazer o mesmo).
com carinho, saudade e (desculpa, sou clichê), boa dosa de promessas,
Mari P. Bragança
Ainda sobre…
Chegou na Tasca agora? Senta, pega um café e deixa eu te contar outras histórias…
Trechinhos da música ‘Epitáfio’, do Titãs; uma boa cia para essa leitura.










A chegada dos quarenta mexeram muito comigo... Não sei se pode ser algo parecido que tá rolando aí. Enquanto a gente tenta entender, tomara que a gente se permita aproveitar mais, amar mais, etc. beijos!
Minha querida, grande amiga dessa jornada de escrita! Vamos deixar pra lá a insegurança e qualquer modéstia e começar juntas a nos autoentitular escritoras. É o que somos, amamos e fazemos. A vida é cíclica e há fases mais difíceis de colocar os pensamentos no papel e depois clicar “publicar”. No entanto, elas voltam. Até lá, seguimos nos nossos cadernos e blocos de notas. Os rascunhos são parte importantíssima da escrita — confia! E agora, mais uma vez arrepiada depois de ouvir essa história do avião que arremeteu, te envio energias lindas para que na viagem de agora, junto dos seus, vocês voltem sãos e salvos. Louca para o nosso encontro muito em breve (e quem sabe, na Tasca?!). Amo você ❤️